Diagnóstico final · síntese dos 9 indicadores
Maior deterioração fiscal em duas décadas, com um setor externo paradoxalmente saudável.
A Colômbia não está em crise aberta — o emprego está em mínimos, a conta corrente é uma das mais equilibradas do período e o investimento estrangeiro não desabou. Mas atravessa sua pior deterioração fiscal e de credibilidade internacional desde a perda do grau de investimento de 2021, e desta vez sem uma pandemia que a explique.
O que melhorou (ou resistiu) sob Petro
- Conta corrente: uma das mais baixas do período (~2,5% do PIB em 2025; 1,8% em 2024, seu piso recente, frente aos ~4–5% de Santos e Duque).
- Sem fuga abrupta de capitais: não houve colapso do investimento, mas o IED de fato enfraqueceu —caiu a ~2,5% do PIB em 2025 (−16% ao ano)—, não se manteve "estável".
- Desemprego em mínimos históricos (8,9% em 2025, o mais baixo desde 2001), embora com emprego precário: 48,9% dos ocupados ganham menos de um salário mínimo, e a proporção vem aumentando.
- O peso valorizou-se com força dentro do mandato, do pico de ~$5.061 (nov-2022) para ~$3.400 (jun-2026).
O que se deteriorou
- Crescimento: o mais baixo do período (~1,6% em média frente aos 4,6% de Uribe).
- Déficit fiscal ~6,4% do PIB em 2025, sem um choque tipo COVID que o justifique. Junto ao Brasil, a Colômbia é um dos outliers fiscais da região (Peru, Chile e México operam muito abaixo).
- Regra fiscal suspensa por três anos: âncora de credibilidade desativada voluntariamente.
- Nota de crédito: mais fundo no grau especulativo (S&P BB-, Fitch BB); Moody's (Baa3) é o único fio que sustenta o grau de investimento.
O veredicto comparado
CRESCIMENTOUribe lidera (~4,6%), com vento favorável do petróleo e da segurança democrática.
CREDIBILIDADESantos é a melhor era: recuperou e consolidou o grau de investimento e teve o menor déficit fiscal (~2,9%).
O GOLPEDuque perdeu o grau de investimento em 2021 (S&P e Fitch), agravado pela pandemia.
HERANÇAPetro recebe o pior de ambos —inflação de 13% e déficit pós-COVID— e não o corrige; sua marca própria é a desordem fiscal com regra suspensa, compensada pelo ajuste externo, pelo emprego em mínimos e por avanços sociais reais (pobreza a 28%, desigualdade em queda, IDH em alta).
O risco daqui para frente
O fio é o Baa3 da Moody's. Um rebaixamento para Ba1 ativaria vendas forçadas de fundos com mandato de grau de investimento, encarecendo ainda mais o crédito.
O custo já subiu: TES em 13–14% e juros da dívida em ~3,2% do PIB em 2026 (perto de 5% somando amortizações). Cada ponto de déficit custa mais do que antes.
A conta quem paga é o próximo governo: herda um hiato fiscal estrutural de 3–4 pontos do PIB e um gasto rígido em 88% do orçamento. O ajuste exigido seria um dos maiores da história recente.
A leitura social · o país por trás da macro
Os números financeiros escondem a outra metade. Em 20 anos a pobreza caiu de ~50% para ~28% (DANE 2025) e os homicídios de 70 para ~26 por 100.000 —dois ganhos enormes de longo prazo, anteriores a este governo—, mas o progresso é desigual: a desigualdade continua entre as mais altas do mundo (Gini 0,531 em 2025, embora em melhora), mais da metade do emprego é informal (~56%) e a percepção de corrupção se deteriorou em 2025 (caiu para 37/100, −7 posições segundo a Transparência Internacional). O desenvolvimento humano sobe devagar, independentemente de quem governa.
O reenquadramento importa: o desemprego em mínimos perde brilho ao lado da informalidade de 56% e do fato de quase metade ganhar menos de um mínimo; o crescimento perde sentido ao lado de um Gini que ainda distribui mal o que se produz; e a "paz total" não se traduziu em menos violência letal —2025 foi o ano com mais homicídios da década em números absolutos. Sob Petro, a pobreza e a desigualdade cederam de forma apreciável, mas a segurança e a corrupção não melhoraram.
Cautela de interpretação: a inflação e a taxa de câmbio são determinadas pelo Banco de la República (independente) e por fatores globais —preço do petróleo, o Fed, a pandemia—, não apenas pelo Executivo. Os mandatos têm durações distintas (8 anos Uribe e Santos; 4 Duque e Petro) e enfrentaram choques distintos. Este painel descreve trajetórias, não atribui causalidade mecânica: uma boa ou má média não implica que o governo da vez a tenha causado.
O prometido vs. o alcançado · metas oficiais frente à realidade
"A realidade não foi o que o plano esperava": desculpa ou prestação de contas?
Cada governo fixa metas em seu Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) e no Marco Fiscal (MFMP). O argumento de que "a realidade superou o plano" é em parte válido —nenhum plano previu a pandemia nem o ciclo de juros— mas também é o cerne da prestação de contas: os planos devem ser realistas, e o otimismo sistemático (sobretudo fiscal) é em si mesmo uma falha. Aqui cada governo é medido contra seu próprio PND —a mesma régua para os quatro—.
Duas metas que nenhum governo cumpre
Nenhum a cumpriu em média. Ressalva: é fixada pelo banco central (independente), não pelo Executivo.
O executado supera a meta quase todos os anos; 2024 fechou em 6,7% (número definitivo) e 2025 em 6,4%. O CARF emitiu pareceres por "contas alegres".
A leitura equilibrada —mesma régua para os quatro: medido cada governo contra seu próprio PND, o panorama é matizado. Uribe cumpriu em seu núcleo (segurança, crescimento, inflação) e ficou aquém no emprego. Santos tirou 4,4 milhões da pobreza, mas não alcançou o crescimento de 6,2% que prometeu. Duque descumpriu quase todas as suas metas, com a pandemia como choque legítimo. Petro apresenta atrasos comparáveis —investimento, moradia, execução do PND— mas sem um choque da magnitude da COVID. Assim, "a realidade não foi o esperado" é ao mesmo tempo uma defesa parcialmente válida e uma admissão de que os planos —sobretudo no fiscal— foram otimistas demais.
A herança · o que recebe o governo entrante
Um Estado sem caixa livre, viciado em receitas não recorrentes e com um ajuste pendente entre os maiores da história recente.
Governo 2026–2030 · posse em 7 de agosto de 2026 · segundo turno de 21 de junho de 2026 vencido por margem estreita: 49,66% vs 48,70% (~1 ponto, dados da Registraduría)
O próximo governo recebe uma macroeconomia sem crise aberta, mas com as finanças públicas em seu ponto mais tensionado fora de pandemia. A aritmética é implacável: quase todo o orçamento está comprometido por lei, as receitas não bastam, refinanciar a dívida é caro e a credibilidade internacional pende de uma única agência. Isto é o que aparece no cofre no dia da posse.
O triplo nó
CORTARReduzir gasto, mas 88% está blindado por lei ou pela Constituição: não se corta sem reformas de fundo.
ARRECADARElevar receitas, mas duas reformas tributárias já naufragaram no Congresso e os dividendos do petróleo caem a menos da metade de 2024.
RECUPERARRestaurar credibilidade —reativar a regra, sustentar a Moody's, conservar a Linha de Crédito Flexível do FMI— de forma simultânea e crível.
O que os mercados vão vigiar
Se a Moody's rebaixar para Ba1, ativam-se vendas forçadas de fundos com mandato de grau de investimento: encarecimento imediato do crédito.
O primeiro plano financeiro e a reforma tributária do novo governo: se trazem metas e medidas concretas, ou mais mecanismos administrativos sem efeito jurídico.
A sequência de reformas: uma reforma de receitas (tributária) é a prioridade; em paralelo, ajustar o gasto exige mexer nas reformas previdenciária, trabalhista e de transferências —as três, custosas em capital político.
A governabilidade do ajuste: um mandato vencido por ~1 ponto, um país polarizado e um Congresso fragmentado limitam o capital político para reformas impopulares. A bandeira de "reduzir o Estado" colide com a rigidez dos 88%.
Nota política (neutra): o governo entrante chega com um programa declarado de contenção do gasto e disciplina fiscal. Que essa intenção se traduza em resultados depende menos da vontade e mais de três restrições que não mudam com a cor do governo: a rigidez legal do gasto, a aritmética da dívida cara e a capacidade de aprovar reformas em um Congresso dividido. Este painel descreve a herança econômica, não avalia o governo entrante nem o de saída.
Como ler estes números (sem maquiagem)
- A média engana com valores extremos. Por isso cada cartão de média mostra também a mediana, o intervalo e, onde aplicável, a média ex-pandemia (exclui 2020–2021). Exemplo: o crescimento de Duque tem média de 3,5% mas sua mediana é 5,3% e seu intervalo vai de −7,2% a +10,8% — a média sozinha não basta.
- A pandemia distorce Duque em crescimento, déficit, dívida, desemprego e taxa de câmbio. Boa parte de seus números reflete o choque da COVID, não decisões discricionárias.
- O mandato de Petro está incompleto. 2025 é provisório e 2026 projeção (linha pontilhada, excluída das médias). Herda ainda a inflação de 13% de 2022.
- A dívida e a nota de crédito não se calculam por média: olha-se a variação durante o mandato. A dívida de Petro parece estável em parte pela valorização do peso e pela gestão da dívida, não por superávit.
- Taxa de câmbio sem juízo de valor: um peso fraco ajuda exportadores e prejudica importadores. Não é colorida como "boa" ou "ruim".
- A camada social tem quebras de série. A pobreza mudou de metodologia em 2012 (daí o salto visual 2011→2012, que não é real); o índice de corrupção mudou de escala em 2012; a informalidade é medida de forma distinta conforme o período. Usem-se as tendências longas, não os décimos.
- O IDH recente usa o vintage do HDR 2025. Os anos 2023–2026 refletem o Relatório de Desenvolvimento Humano 2025 do PNUD (dado de referência 2023: 0,788), com o qual a Colômbia subiu da 91ª para a 83ª posição no ranking mundial. O salto visual 2022→2023 não é uma melhora de um único ano: é a reescala de metodologia que o PNUD aplica a toda a sua série a cada relatório. Leia-se a tendência de longo prazo, não o salto pontual.
- Números atualizados até junho de 2026. Os dados recentes foram verificados contra as publicações oficiais mais recentes: déficit GNC 2024 definitivo 6,7% e 2025 6,4% (Ministério da Fazenda); dívida bruta GNC fechamento 2025 64,7% / líquida 58,5%; pobreza monetária 2025 28,0% e Gini 0,531 (DANE, junho de 2026); IED 2025 ~2,5% do PIB, em queda (BanRep); IPC de corrupção 37/100 (CPI 2025, Transparência Internacional); TRM ~$3.400 (junho de 2026). Onde um número mudou em relação às versões preliminares, prevalece o dado oficial definitivo.
- A dívida é dívida bruta do governo central, definição do Ministério da Fazenda. Toda a série usa a dívida bruta do Governo Nacional Central dos fechamentos fiscais do Ministério da Fazenda (a mesma do MFMP, que inclui o reconhecimento de passivos de 2019), ancorada em 63,9% em 2024 e 64,7% em 2025. Não é dívida líquida (mais baixa: 58,5% em 2025, descontados ativos), nem a série do Banco de la República (~5–8 pp mais baixa por cobertura distinta), nem a dívida do Governo Geral ou do FMI (mais altas). A série histórica foi auditada ano a ano contra esta definição.
Fontes: Banco Mundial (WDI) · DANE (pobreza, Gini, informalidade) · Banco de la República · Ministério da Fazenda (MFMP) · CARF · DNP / Plano Nacional de Desenvolvimento · Conselho Nacional de Planejamento (acompanhamento do PND) · Medicina Legal / Polícia Nacional (homicídios) · PNUD (IDH) · Transparência Internacional (IPC) · S&P / Fitch / Moody's · FMI · Registraduría Nacional (resultado eleitoral, junho de 2026). Corte: junho de 2026. Números de 2025 provisórios; 2026 projetados. Déficit e dívida referidos ao Governo Nacional Central. Séries 2002–2021 compiladas e arredondadas de fontes oficiais; anos recentes verificados contra relatórios 2025–2026. Pobreza, IPC e informalidade têm quebras metodológicas (2012): comparar tendências, não décimos. As notas de crédito são ordinais: a linha é ilustrativa e os cartões mostram as notas reais. O "maior déficit em 125 anos" do Fedesarrollo é uma projeção de 2026, não um fato.